"Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta prórpia ou auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. [...] Existir me dá às vezes tal taquicardia. Tenho tanto medo de ser eu. Me deram um nome e me alienaram de mim.[...] Inspiração não é loucura. Meu problema é o medo de ficar louco. [...]A separativa e a ignorância são o pecado num sentido geral. E a loucura é a tentação de ser totalmente o poder."
E lá estava eu, sentada no pátio, com os olhos presos num livro.
Não sei como, mas percebi que alguém me fitava, usando olhos interessados, e tal curiosidade.
Lentamente, e com muito cuidado, passei os olhos pelo recreio; nada mais vi, que as cenas normais do dia-a-dia. Meninos brigando, casais usufruindo de cantos escuros.
Mas algo, me fez parar os olhos nele. Forma angelical, e quieta, como os olhos numa moça qualquer.
Voltei a prestar atenção nas palavras unidas por Clarice.
Curiosa, ainda sentindo olhar, levantei discretamente os olhos do livro.
Quando o fiz, vi que ele estava sentado, sozinho, a alguns metros de mim. Ele soltou um leve sorriso de canto, pra mim, e a unica coisa que pude fazer, foi sorrir com os olhos.
Acho que ele entendeu.
Devo esse post a fabulosa obra de Clarice Lispector: Um Sopro de Vida - 3ª edição / 1978. Obrigado Clarice.
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